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Chico Science. Hoje, 23 anos de sua morte.

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Era final de domingo, quase no carnaval. Pernambuco já estava em festa e os foliões pulavam de bloco em bloco, quando um carro fechou outro na rodovia PE-1, que liga Recife à Olinda, e bateu em um poste. O que poderia ser uma mera estatística de trânsito resultou em um acidente fatal que dividiu a cultura pernambucana ao meio. Quando Chico Science perdeu o controle do Fiat Uno que dirigia e saiu da estrada no dia 2 de fevereiro de 1997, selou o fim de uma biografia que foi a força-motriz de um dos movimentos mais instigantes do fim do século passado, o mangue beat. Resgatado ainda com vida por um policial, sua morte foi acontecer longe da estrada, no Hospital da Restauração, chocando toda a população pernambucana e os amantes da música brasileira tanto no país quanto no exterior.

Chico Science era o gatilho que a década de 1990 — muito mais do que o Recife — precisava. Ele verbalizava mudanças que encontravam eco em artistas tão diferentes quanto Skank, Raimundos, Pato Fu Planet Hemp. Enquanto Fred Zero Quatro era o teórico do movimento à frente do Mundo Livre S/A, Chico puxava sua Nação Zumbi para o centro dos holofotes no país. Escrevendo de acordo com a cartilha tropicalista, ele reforçava o choque entre os extremos, a miséria do mangue e a alta tecnologia; a vida rural e a cidade grande, África, Caribe e o eixo Londres-Nova York. Tudo era sintonizado no Recife. A metáfora da antena enfiada na lama era a imagem perfeita da própria influência de Chico Science na música brasileira.

“Modernizar o passado é uma evolução musical”. Assim ele abria o primeiro disco, contrapondo alfaias, bateria, guitarra psicodélica e baixo de reggae, puxando letras que soavam como raps, repentes ou toasts. O canto falado de Francisco de Assis França era uma de suas marcas registradas, como o chapéu coco de palha, os óculos de surfista, o colar de terreiro, o sorriso maníaco e o carisma instantâneo. Era um líder nato, especializado em abrir alas. Ultrapassou o movimento armorial ao misturar beats de música eletrônica e riffs de guitarra africana à ortodoxia recente dos blocos de maracatus.

Sua morte repentina, um mês antes de completar 31 anos, foi um baque pesado na cena pernambucana. De repente, a Nação Zumbi não tinha seu principal nome, o Mundo Livre S/A via-se sem o contrapeso e grupos como Cumadi Fulozinha, Mestre Ambrósio, Sheik Tosado, DJ Dolores, Eddie e Jorge Cabeleira e o Dia Em Que Seremos Todos Inúteis começam a seguir seus próprios rumos, sem a liga central puxada por Chico. Foi o momento em que o formato mangue passou a ser copiado por bandas que nem eram do Pernambuco e a cena local entrou em um processo de reavaliação que só conseguiu sair a partir da virada do século.

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