A Ressurreição da Intel: Por Que a Gigante dos CPUs Ultrapassou a Nvidia no Radar de Wall Street

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O mercado acordou agitado nesta quinta-feira, 11 de junho de 2026. As ações da Intel (INTC) deram um salto absurdo de mais de 9%, puxando junto o índice do ETF de semicondutores iShares (SOXX) em mais de 8%. O estopim para essa disparada foi uma daquelas raras e agressivas reversões de humor em Wall Street: Vivek Arya, analista do Bank of America Securities, deu um “double upgrade” na empresa. Ele pulou direto da recomendação de venda (underperform) para compra, ignorando solenemente o meio-termo neutro, e catapultou o preço-alvo dos papéis de US$ 96 para US$ 135. Com a notícia, a ação fechou o dia cotada a US$ 116,96.

A Virada de Chave: De GPUs para CPUs Agênticos

O que Arya e o mercado começaram a precificar é uma mudança fundamental de ventos tecnológicos. O analista deixou clara a sua confiança na capacidade da Intel de resolver os atuais gargalos da indústria no fornecimento de wafers de ponta e empacotamento avançado. Mais do que isso, a grande aposta está na abocanhada que a Intel pode dar no mercado de CPUs “agênticos”, um filão que se desenha muito maior do que o esperado. A projeção é agressiva: até 2030, a Intel deve dominar cerca de 25% de todo o mercado endereçável de CPUs para servidores, batendo na casa dos US$ 40 bilhões em vendas.

Isso reflete uma transição clara no foco dos investidores. Nos últimos meses, o mercado só falava de GPUs usadas para treinar modelos de Inteligência Artificial. Agora, as atenções estão se voltando para os CPUs e componentes de infraestrutura necessários para rodar as tarefas do dia a dia por meio de agentes de IA. Essa dinâmica até causou uma certa pausa no “trade de IA” recente, com investidores rotacionando seu capital de apostas saturadas em infraestrutura para setores mais defensivos e cíclicos, mas a Intel conseguiu surfar exatamente nessa nova onda.

“Mais Importante que a Nvidia”

Jim Cramer capturou o espírito da coisa de forma visceral no seu quadro “Mad Dash”, no Squawk on the Street da CNBC. Em uma de suas chamadas mais incisivas do ano, ele colocou a Intel no topo da cadeia alimentar dos chips. Invertendo a hierarquia sagrada que favoreceu a Nvidia por quase todo esse ciclo tecnológico, Cramer foi categórico: “Eu acho que este é o nome número um. Acho que é um nome mais importante do que a Nvidia neste exato momento”.

Para quem viu a Intel derreter para a casa dos US$ 29 no segundo semestre do ano passado, a virada é de cair o queixo. Cramer apontou justamente para esse histórico da empresa de voltar à vida após quedas brutais e resumiu o cenário: “A recuperação do CPU é impressionante. Não há uma nova fonte de dinheiro aqui, são apenas as pessoas reconhecendo o valor do papel depois dele esfriar os ânimos e voltar com tudo”.

Os Números por Trás do Hype

A tese de Cramer não se baseia apenas em sentimento; os fundamentos justificam a empolgação. No primeiro trimestre fiscal de 2026, a Intel entregou um lucro por ação (não-GAAP) de US$ 0,29 sobre uma receita de US$ 13,58 bilhões, marcando um crescimento anual de 7,2%. O segmento de Data Center e IA saltou 22%, batendo US$ 5,05 bilhões, enquanto a antes cambaleante Intel Foundry expandiu 16%, chegando a US$ 5,42 bilhões.

O pano de fundo estratégico dessa expansão foi muito bem desenhado pelo CEO Lip-Bu Tan: “A próxima onda de IA trará a inteligência para mais perto do usuário final, saindo dos modelos fundacionais para a inferência e, em seguida, para os modelos agênticos. Essa mudança aumenta drasticamente a necessidade dos CPUs da Intel, bem como das nossas ofertas avançadas de empacotamento e wafers.”

E o dinheiro pesado já começou a se posicionar. A própria Nvidia fez um aporte colossal de US$ 5 bilhões em ações ordinárias da Intel, um movimento seguido por US$ 2 bilhões do SoftBank. O governo dos EUA também não ficou de fora, garantindo uma fatia significativa do bolo junto com os US$ 8,9 bilhões em subsídios do CHIPS Act. Para selar essa teia de dependência mútua, o Intel Xeon 6 foi escalado como o CPU host para os badalados sistemas DGX Rubin NVL8 da Nvidia, amarrando o roadmap de produtos das duas gigantes.

A Tração da Foundry

A operação de fundição da Intel, projetada para fabricar chips para terceiros, finalmente está ganhando tração e atraindo pesos-pesados. Segundo o BofA, a Intel está na mesa de negociações com nomes como Apple, MediaTek e até a Terafab de Elon Musk. Na última segunda-feira, as ações já haviam saltado com a notícia de que o Google assinou como cliente da Intel Foundry, encomendando a produção de mais de 3 milhões de suas Tensor Processing Units (TPUs) para 2028.

Tudo isso tem se refletido nos gráficos de forma explosiva. A ação rompeu uma base sólida (cup base) com ponto de compra em US$ 54,60 lá no início de abril, ganhou ainda mais força com os resultados do primeiro trimestre e chegou a bater a máxima histórica de US$ 132,75 em 11 de maio. Após uma correção natural de cerca de 17% no último mês, o duplo upgrade desta quinta-feira reacendeu os motores.

Olhando para a pintura completa, a Intel acumula uma alta de impressionantes 190,08% no ano e 384,78% nos últimos 12 meses, deixando para trás aquela mínima assustadora de US$ 18,96. Apenas a título de comparação, a Nvidia avançou 7,59% no acumulado do ano, negociada a US$ 200,79, embora ainda ostente um valor de mercado titânico de US$ 4,86 trilhões contra os US$ 566,88 bilhões da Intel.

Ainda há ceticismo na mesa, naturalmente. O papel negocia a um múltiplo (forward P/E) bastante esticado na casa das 111x, reflexo direto de projeções de lucros espremidas enquanto a pesada reestruturação da foundry acontece. Restam 31 recomendações de “manutenção” no mercado, ancorando o preço-alvo médio nos US$ 92,17. No entanto, o vento institucional parece ter mudado de direção. Com 47 transações recentes de insiders puxando para a compra e um salto brutal na pontuação de sentimento composto ao longo da última semana, o xadrez do mercado de chips acabou de ganhar um tabuleiro muito mais complexo.