Brasil endurece combate ao garimpo ilegal na Amazônia e traça nova estratégia para minerais estratégicos

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Em um movimento duplo para sanear e modernizar o setor de mineração nacional, autoridades brasileiras intensificaram a repressão à extração ilícita na região Norte, ao mesmo tempo em que o governo federal lança bases para uma política industrial voltada às terras raras.

Recentemente, uma articulação internacional envolvendo Brasil, Guiana Francesa, Suriname e Guiana resultou em uma vasta ofensiva contra o garimpo ilegal no Escudo das Guianas. A operação conjunta, focada na vigilância das fronteiras, realizou cerca de 24,5 mil inspeções em pessoas e veículos. O objetivo central é asfixiar a logística do crime organizado, interrompendo o fluxo de mercúrio e outros insumos vitais para a atividade clandestina.

Segundo o Ministério Público Federal (MPF), essa cooperação policial e jurídica inédita entre os quatro países busca não apenas frear a extração do ouro, mas estancar os graves danos socioambientais. Com a valorização do metal precioso nos últimos trimestres, a vigilância precisou ser reforçada. Estima-se que a extração ilegal na área de fronteira varie entre dez e doze toneladas anuais, um volume desproporcional quando comparado à produção legal, que gira em torno de uma a duas toneladas.

Impacto ambiental e prejuízo bilionário

O custo dessa atividade predatória é alto. Além das perdas econômicas, que superam R$ 3 bilhões (aproximadamente US$ 570 milhões) por ano, o rastro de destruição ambiental é alarmante. O MPF aponta que o desmatamento associado ao garimpo já consumiu 28 mil hectares de floresta na Guiana Francesa e cerca de 110 mil hectares no lado brasileiro da Amazônia, sem contar a contaminação dos rios por mercúrio e cianeto.

A operação contou com o suporte estratégico de autoridades da União Europeia e da Interpol, sinalizando que o controle da Amazônia é uma pauta de segurança global.

A aposta nas Terras Raras e soberania nacional

Enquanto as forças de segurança atuam para conter o passivo ambiental na Amazônia, em Brasília o Ministério de Minas e Energia (MME) iniciou a elaboração de diretrizes de longo prazo para a cadeia de terras raras. O governo busca alinhar o desenvolvimento mineral às políticas de transição energética e inovação, tentando superar a condição de mero exportador de commodities.

Ana Paula Bittencourt, secretária nacional de Geologia, Mineração e Transformação Mineral do MME, destacou em reunião com especialistas que a Estratégia Nacional de Terras Raras é fundamental para transformar potencial geológico em desenvolvimento concreto. “Queremos passar da produção primária para o processamento mineral, capturando mais valor em território nacional e promovendo benefícios duradouros para toda a sociedade brasileira”, afirmou a secretária, ressaltando a busca pelo fortalecimento da soberania sobre esses recursos estratégicos.

O encontro contou com a participação de representantes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), evidenciando o interesse externo na capacidade brasileira.

Disputa geopolítica e o potencial de Minas Gerais

O cenário global favorece o Brasil. O país detém 23% das reservas mundiais de terras raras — ficando atrás apenas da China —, mas responde por apenas 1% da produção global devido à falta de tecnologia para processamento. Diante da necessidade dos Estados Unidos e da União Europeia de reduzir a dependência chinesa, o mercado brasileiro tem atraído a atenção de empresas privadas e investidores estrangeiros.

O foco desse novo ciclo de investimentos recai sobre Minas Gerais. O estado combina grande potencial geológico com reservas significativas, especialmente na região de Poços de Caldas. Rafael Moreno, CEO da australiana Viridis Mining and Minerals, comparou a geologia local à do sul da China, conhecida pela riqueza em terras raras magnéticas e pesadas. A empresa desenvolve o projeto Colossus, avaliado em US$ 360 milhões, na cidade mineira.

Segundo Moreno, a demanda por esses minerais cresce a uma taxa de 10% ao ano, exigindo rapidez na abertura de novas frentes de lavra. “Para atender à demanda projetada até 2028, seriam necessários oito projetos do tamanho do Colossus”, alertou o executivo, lembrando que, nas últimas três décadas, apenas três empresas ocidentais do setor conseguiram chegar à fase de produção.

Acompanhando a movimentação federal, o governo de Minas Gerais, por meio da Codemig, também trabalha na definição de políticas estaduais para incentivar o setor, tentando posicionar o estado como um hub global para a tecnologia do futuro.